[No Mínimo] Eduardo Issa entrevistado por Paulo Lima - Sergipe
Edu_Issa March 31st, 2003
A idéia do roteiro não nasceu por acaso. Issa acumula em seu currículo diversas andanças pelo planeta. A primeira viagem foi à Austrália, em 1989. Determinado a ficar um ano por lá, trancou o curso de arquitetura. O dinheiro acabou antes. O jeito foi se improvisar de pedreiro, garçom e o que mais pintasse como trabalho. Nos fins de semana, Issa saía para fotografar lugares ainda desconhecidos dos brasileiros. Mandava o material para revistas como “Terra” e “Fluir”, no Brasil. Na volta, acabou contratado. Essas e outras viagens lhe propiciaram conhecimento suficiente para lidar com meio ambiente e ecoturismo, e serviram de base para o seu projeto sobre os parques nacionais.
Lar sobre rodas
Para cobrir um trajeto tão extenso, Issa aliou comodidade e baixo custo. Durante dois anos, trabalhou na preparação de um motorhome. “Todo o dinheiro que eu ganhava trabalhando, fazendo matéria, eu ia colocando no carro”. Pouco a pouco, uma Toyota Bandeirantes, escolhida por sua resistência a estrada ruim e por dispor de peças em todo o Brasil, foi passando por uma metamorfose. No final, havia em seu lugar uma “casa” sobre rodas, equipada com o necessário para o “habite-se”: pia, sanitário, chuveiro, reservatório de água etc.
O marco zero do projeto aconteceu no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. Lá, Issa sofreu o primeiro susto, dentre outros por que passaria ao longo da sua jornada. No pernoite no parque, acompanhado de um funcionário do Ibama, Issa estacionou o motorhome numa trilha margeada pelas águas da lagoa. À noite, toda a estrutura começou a sacudir de um lado para outro. Issa não teve dúvidas: as águas haviam subido e estavam engolindo o trailer. Assustado, abandonou seu posto e descobriu que um cavalo estava usando o veículo para se coçar…
Em seu projeto original, Issa procurou levar em conta as peculiaridades de cada região por onde ia passar. “Mas esse roteiro foi furando no meio do caminho”, disse. O ziguezague é inevitável, em razão das oportunidades que iam surgindo. Enquanto fotografava um parque em São Paulo, por exemplo, um outro atrativo acenava para Issa: a temporada das baleias em Abrolhos, no sul da Bahia. “Depois, desci e fiz um parque no Espírito Santo, alguns no Rio, e cortei o Brasil de novo indo pra Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, fui subindo”.
Riscos e descobertas
No aprofundamento dessa geografia, Eduardo Issa tem vivenciado alumbramentos e perigos. Enquanto rodava pelo Paraná, se deparou com uma manifestação do MST com cerca de mil pessoas. O oportunismo de repórter fotográfico falou mais alto. Sem pestanejar, começou a fotografar tudo a sua volta. Cinco homens, surgidos do nada, o cercaram. Um deles encostou-lhe uma faca na barriga. “O que você está fazendo aqui?” - inquiriu. Issa se apavorou: “Senti que ia morrer, que eles iam me matar. Eu tinha acabado de ouvir sobre o fotógrafo (Luiz Antônio da Costa, da revista “Época”) que tinha sido morto lá em São Bernardo, cobrindo uma manifestação. Fiquei com aquilo na cabeça”. Apontando para o motorhome, estacionado ali próximo, Issa conseguiu provar que era um jornalista trabalhando em outra missão.
Houve situações em que o perigo se confundiu com o deslumbramento. No Mato Grosso do Sul, diante de um rio de águas límpidas, um mateiro da região avisou: “Tem uma sucuri aqui dentro”. Tomado pelo entusiasmo, Issa pegou a filmadora e mergulhou. “Quando eu vi, estava de frente para uma sucuri de 7 metros. Nunca tinha enfrentado uma situação dessas, de fascínio e medo”, descreve com a emoção de estar vivendo a cena naquele instante. “Nessa hora, fiquei com muito medo. Ela saiu, fui seguindo e filmando. Foram 15 minutos de imagens espetaculares. Nunca tinha visto uma imagem dessa.”
A região Norte ofereceu a Issa uma das experiências mais tristes de toda a viagem. Ele voltava de um lugar perdido no meio do Acre. Era um vôo para registrar imagens. No momento da partida, uma mãe pediu que transportassem seu filho de 5 anos, muito doente. O avião estava com lotação completa, mas conseguiram acomodar o menino. “Era uma hora, uma hora e meia de vôo, vôo curto. Em 40 minutos de vôo, no entanto, o menino começou a passar mal, ninguém sabia fazer massagem cardíaca. Eu sabia, mas estava na frente, não tinha como passar para o fundo. O menino faleceu no meio do vôo.”.
Foi na Amazônia que Issa enfrentou os momentos mais difíceis. “É fora de qualquer padrão de estrada, de comida, de alojamento. Nada bate. Em alguns lugares, precisei de auxílio de índio para chegar.” Contribuiu ainda a falta de estrutura de algumas áreas do Ibama. “Teve parque lá que eu demorei um mês e meio para conseguir fazer. Isso aí pesa no orçamento.” E para reforçar seu orçamento, Issa conta com os aluguéis de uma casa e de um ponto onde funciona seu escritório em Guaratinguetá.
Parte dos atrasos sofridos na execução do projeto pode ser creditada às dimensões da Amazônia. “Em alguns parques, você chega de barco. Na seca, você não chega. Então, dentro do possível, tive de me programar para isso. Mas não deu muito certo, não. Em muitos parques, eu cheguei na época errada”, explica. Por causa dessas variações, alguns atrativos desses parques, como cachoeiras, não puderam ser registrados.
Mas, para Issa, a Amazônia se impôs também por outros aspectos. “Fiquei impressionado com a riqueza cultural das pessoas vivendo na Amazônia. Elas não têm esse apego material que as pessoas têm no Sudeste, no Sul, no Nordeste.” No modus vivendi do caboclo amazonense, o mínimo significa o máximo. Dali mesmo, dos rios e plantações, retira o suficiente para viver. “E não faz falta nenhuma ter televisão”, surpreende-se o fotógrafo. “Esses valores materiais, para mim, também mudaram muito.”
A Amazônia, contudo, é uma prova inconteste de que, junto com o progresso, vêm os seus malefícios. Issa notou que, junto com a estrada, chegam os problemas: garimpo, prostituição, doença, desmatamento. “Nos lugares que têm muita água e não têm estrada, as florestas ainda estão intactas, como é o caso do Amapá. Já o Pará, que é o estado que mais tem estrada, perde suas madeiras de uma forma absurda”.
Foi nessa área de contrastes dramáticos que Eduardo Issa passou por uma das experiências mais sensacionais que já teve na vida: surfou uma pororoca. “Fiquei 13 minutos numa onda, um tempo impossível de ficar numa onda de mar.”
Perigo na Tijuca
O motorhome nem sempre tem conseguido agüentar o tranco. Quebrou umas vinte vezes. Numa delas, avariou o eixo traseiro, com o guincho mais próximo estando a uma distância de 400 km. “O único jeito que consegui para sair da estrada foi arrumar uma cavadeira, um trator. Ele veio por trás, levantou meu carro com aquela pá e foi empurrando 13 quilômetros até o pátio de uma empresa que estava prestando serviço na estrada”. O eixo novo veio de São Paulo. Toda a operação demorou quase um mês. Enquanto aguardava, Issa ficou dormindo no pátio da empresa que estava asfaltando a estrada.
Issa tenta estabelecer uma rotina de trabalho. Acorda cedo, entre 5 e 7h, para documentar a vida animal. No final da tarde, faz nova saída. Das 9 às 2 da tarde, diminui as atividades, por causa da luz ruim para fotografia. Mas ele explica que nem sempre dá para manter essa regularidade. Por exemplo, no Projeto Tamar, em Sergipe, saiu a uma da manhã e retornou às quatro, para registrar a desova das tartarugas. Além disso, o projeto pode sofrer interrupções. Recentemente, necessitando de recursos, Issa acabou se encaixando numa expedição do Ministério do Exterior, para demarcação da fronteira entre o Brasil e a Guiana Inglesa.
Essas experiências têm permitido a Eduardo Issa fazer uma radiografia dos parques nacionais. O diagnóstico não é dos mais promissores: “Acho que, de um modo geral, estão meio que abandonados.” Segundo ele, há áreas com um bom manancial de recursos, que não são muitas, mas a maioria enfrenta uma escassez franciscana. Ele notou que, na Amazônia, em lugares como o Parque Tumucumaque, com 3 milhões de hectares, há apenas 5 pessoas para cuidar da área. “Eu fiz um sobrevôo no Tumucumaque de sete horas, e nesse tempo de vôo a gente conseguiu cadastrar 24 pistas clandestinas de garimpo”. Há toda uma situação de risco em áreas com essas características. “Se você desce com o avião, como polícia ou como Ibama, acaba sendo morto. Os caras têm poder de fogo muito grande, têm armamento pesado, e não estão querendo receber visita de ninguém”, denuncia.
De tudo que documentou até agora, Issa não tem do que reclamar. Já rodou pelo menos 130 horas em vídeo, fez cerca de 400 filmes de 36 poses, todos em cromo, e outro tanto com a câmera digital, que utiliza no site Expedição Parques Nacionais, para registro do projeto. No final, todo esse acervo vai ser editado para divulgar os parques visitados. Além disso, será destinado a campanhas de conscientização. Haverá ainda um livro com fotos e texto sobre cada parque, e outro será preparado relatando as experiências vividas ao longo do projeto.
Segundo os cálculos de Eduardo Issa, o projeto deve estar concluído até maio deste ano. Até lá, ele vai continuar convivendo com a saudade da família, a qual vê apenas uma vez por ano, no Natal, incluindo a filha de 8 anos. Para informar o último parque que será visitado, Issa propõe uma adivinhação, com a dica de que se trata de lugar perigoso. Como o repórter não acerta, depois de arriscar alguns locais do Norte do Brasil, ele anuncia com um sorriso de vitória: “Tijuca, no Rio de Janeiro”.
- Clipping
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